03
jun

Foto: Divulgação

Elmar Nascimento tornou-se o centro das atenções nas últimas semanas por conta de posicionamentos polêmicos

O líder do DEM na Câmara dos Deputados, Elmar Nascimento, tornou-se o centro das atenções nas últimas semanas por conta de posicionamentos polêmicos. O deputado federal “soltou os cachorros” contra o governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL). Em discurso, democrata surpreendeu ao afirmar que a gestão tem levado “os parlamentares ao engano”. Nos bastidores, especula-se que o parlamentar esteja entre os articuladores das derrotas do Palácio do Planalto no Congresso Nacional. Em entrevista exclusiva à Tribuna, Elmar faz uma avaliação franca e direta sobre o começo do governo, avaliando-o como “inexperiente na arte de governar”. O baiano também faz uma defesa do parlamento. “Se o povo quisesse que tudo o que o presidente prometeu na campanha fosse implementado, teria eleito ele e feito do partido dele majoritário na Câmara e no Senado. No Senado tem apenas quatro senadores e na Câmara tem 56 deputados. Do mesmo jeito que nós entendemos que a eleição do presidente da República é legítima do ponto de vista do voto, a nossa também é”, destaca.

Tribuna da Bahia – Como avalia esse começo do governo Bolsonaro? Muitos tropeços?

Elmar Nascimento – Digamos que o governo ainda está sendo formatado. É inexperiente na arte de governar e na arte da política. E aí, aos poucos, eles vão ter a oportunidade de ir aperfeiçoando. Vamos torcer para que isso ocorra o mais rápido possível.

Tribuna – Como vê as crises provocadas pelo presidente e pelos próprios filhos? Isso, querendo ou não, cria uma instabilidade no país.

Elmar Nascimento – É uma das coisas mais importantes para o país é a estabilidade. Estabilidade econômica, que decorre da estabilidade jurídica do país, para atrair investimentos. E todas as crises que surgiram até o presente momento não foram por iniciativa da oposição, mas por falhas na comunicação em coisas irrelevantes, que não deveriam ter acontecido. A gente deveria estar focado em ações de recuperação da economia, em especial a votação das reformas ao invés de gastar energia com coisas – que podem até ser importantes do ponto de vista pessoal e do que foi discutido na campanha, mas que não são necessárias agora no momento em que o Brasil está vivendo.

Tribuna – Como foi a conversa com o prefeito ACM Neto depois que o senhor fez um discurso quente na Câmara Federal, criticando o governo Bolsonaro?

Elmar Nascimento – Foi uma conversa normal. Não houve dificuldade nenhuma. Ele estava, ele assistiu, nos falamos depois e  jantamos juntos. Acho que ele reproduziu o que aconteceu, fruto de uma indignação do momento por conta de uma atitude da articulação política do governo, das lideranças, e isso está absolutamente superado. Jantei com o líder do governo na Câmara na terça e ele fez uma constatação que revelou, inclusive, para o próprio presidente da República de que eu devia estar com a razão no que estava falando porque o reflexo foi eu ter sido bastante aplaudido pela maioria esmagadora do plenário.

Tribuna – Houve alguma orientação do partido para o senhor amenizar as críticas ao Planalto?

Elmar Nascimento – Nenhuma. Eu reproduzo simplesmente o sentimento da bancada.

Tribuna – Como é que está articulação da bancada? Como ela está se comportando nesse novo momento da política nacional?

Elmar Nascimento – A disposição de todo mundo é de colaborar. Sempre quando acontece algum curto-circuito assim, na semana o clima já baixa naturalmente. O ministro Onyx intensificou o contato com todos e comigo para azeitar não só a relação do Democratas, mas de todos os partidos do Congresso Nacional.

Tribuna – Até porque uma das maiores críticas que existem hoje ao governo é essa dificuldade de relacionamento, sobretudo com o Congresso Nacional. Como é que avalia essa situação e onde está o ponto de tensão?

Elmar Nascimento – O governo foi eleito sem o apoio dos partidos políticos, com um discurso que defendia temas como o porte de armas e esse tipo de coisa, que a gente não acha imprescindível. A eleição do presidente foi absolutamente legítima – que deu uma meia volta em relação aos governos que vinham tomando conta do país com populismo de esquerda. E também a nossa eleição dos parlamentares do Congresso Nacional foi legítima. Se o povo quisesse que tudo o que o presidente prometeu na campanha fosse implementado, teria eleito ele e feito do partido dele majoritário na Câmara e no Senado. No Senado tem apenas quatro senadores e na Câmara tem 56 deputados. Do mesmo jeito que nós entendemos que a eleição do presidente da República é legítima do ponto de vista do voto, a nossa também é. O presidente tem que aprender a dialogar e essa semana tem sinalizado que vai fazer isso. Não posso falar pelos outros partidos, falo pelo nosso, que tem uma história. Quando houve a alternância e o PT assumiu o poder, nós ficamos na oposição. Não foi por falta de ser procurado ou por oferta de cargos. Fomos participar do governo já depois do impeachment, indicando o Ministro da Educação. Entendemos que já que tínhamos participado do impeachment, precisaríamos dar sustentação ao governo – sob pena de o Brasil ser jogado no abismo. Temos orgulho do legado que o nosso ministro Mendonça Filho na Educação. Depois vieram as eleições e, agora, eleito novamente o governo. Se fosse uma questão de ter cargos no governo, nós seríamos governo desde o primeiro instante. Nem quando tínhamos o vice-presidente no governo do PSDB, tivemos três ministérios de ponta como temos agora na Casa Civil, Agricultura e Saúde. O que nos move não é o fisiologismo. O que queremos saber é que, para participar do governo, temos que ser formalmente convidados. Segundo que esse governo tem que mostrar qual é o projeto do país. Temos uma história de estar na oposição e não podemos abraçar um projeto que não é nosso. A pauta econômica nós convergimos, que diga-se de passagem não é pauta do governo, é a nossa pauta. Sempre defendemos uma pauta liberal, de reformas e de economia do gasto público. O próprio presidente da República, quando era deputado, votava contra essa pauta. Se ele trouxe para o governo o ministro Paulo Guedes, que defende a nossa pauta, não tem porque nós não apoiarmos. Agora, quando houver pauta ideológica de liberdade grande para porte de armas, perseguir aqueles que pensam de forma de diferente uma vez que defendemos a diversidade, aí nos afasta. Precisamos saber qual é a prioridade do governo. Para nós, tem que ser prioridade controle de inflação, crescimento econômico e crescimento de emprego.

Tribuna – O presidente, desde a época da campanha, falava muito sobre uma nova forma de fazer política. E foi muito criticado, porque o Congresso ainda não entendeu qual é essa forma de fazer política que ele tanto prega. Como é que o senhor avalia essa situação e o que é que poderia ser feito para melhor a relação entre o Planalto e o Congresso?

Elmar Nascimento – Se essa nova forma de fazer política é abolir o fisiologismo, o presidente está falando a mesma língua da gente. A nossa história do partido mostra que não somos fisiologistas. Portanto, é uma pauta que nos atende. Agora, a forma de funcionar, se chega numa reforma constitucional, que é preciso de um apoio de 3/5 da casa para ser aprovado. É preciso que você tenha um mapeamento dos votos. E esse controle só pode ser feito pelos líderes dos partidos. Porque os líderes foram legitimados por uma escolha pessoal das bancadas. A gente conversa diuturnamente e se reúne às terças-feiras para extrair o posicionamento majoritário em cada um dos temas que serão votados. É claro que, numa matéria constitucional, tem que tomar cuidado redobrado para mapear e convencer aqueles que eventualmente possam não ter condições de acompanhar o partido e as decisões majoritárias da bancada. A última reforma previdenciária que houve, no governo Fernando Henrique Cardoso, perdeu por um voto. E olha que lá tinha base e controle. Portanto, qualquer número que se fale sobre aprovação de Reforma da Previdência hoje, é chute. Quem falar está chutando, porque não há mapeamento disso.

Tribuna – Como foi a convenção do Democratas que reconduziu o prefeito ACM Neto para a Presidência do partido?

Elmar Nascimento – Foi extraordinária. Acho que hoje a gente colhe os frutos das escolhas que fizemos no passado. Falamos de não termos sucumbido de aderirmos ao projeto de poder, que nós não ajudamos a eleger. Sofremos bastante. O partido tinha mais de 100 deputados e caiu para 20. Deu origem até a outro partido. Agora que há alternância de poder, o partido do presidente é maior na esteira da sua eleição e popularidade. Mas o nosso é mais orgânico, mais preparado. E nas próximas eleições, se o nosso campo ganhar, seremos governo. E se perder, ficaremos no campo da oposição. É um partido que tem um objeto absolutamente definido.

Tribuna – O ministro Onyx Lorenzoni sinalizou sobre a possibilidade de o presidente Jair Bolsonaro voltar aos quadros do DEM, já que foi filiado no passado ao PFL. Como andam essas articulações? É uma possibilidade real?

Elmar Nascimento – Não acho que isso seja uma coisa que vá acontecer. Existe um partido do ponto de vista de composição de bancada até maior que o nosso, que é o partido do presidente. Se há pautas que nos unem, como a pauta econômica, também há pautas que nos separam. O presidente não esconde de ninguém essa questão dele com a pauta ideológica de direitos, é um seguidor de Olavo de Carvalho, com relação a políticas de educação, a tratar estudantes e militantes de esquerda como adversários, quando ele prestigia essa agenda da proliferação de armas… Isso são coisas que nos separam. A não ser que o presidente venha convergir com o pensamento nosso e queira mudar, quem é que não quer filiar um presidente da República? Agora, não vejo essa possibilidade, pelo menos a curto prazo.

Tribuna – O DEM hoje pode ser considerado o fiel da balança do governo Bolsonaro? Seria o MDB que funcionou da mesma forma para o PT no passado?

Elmar Nascimento – Não, porque o MDB participou do governo do PSDB e do PT. Nós não participamos do governo do PT em nenhum tempo. Não deliberamos participar em nenhum estante de governo de esquerda.

Tribuna – Mas o partido se coloca hoje como fiel da balança do governo…

Elmar Nascimento – Não é fiel da balança, porque nós sozinhos não garantimos a estabilidade e a condição do governo votar os temas que precisa. É claro que a oportunidade de ter os presidentes da Câmara e do Senado, o diálogo converge entre essas duas pessoas. Quando o Democratas está participando de algum tipo de acordo com o Congresso, está coordenando um acordo com vários outros partidos. O presidente sinalizou que precisa de todos os partidos para governar. A gente terminou virando o elo entre o governo e esses partidos num momento em que o Brasil precisa.

Tribuna – A forma como o centrão está constituído soa de uma forma que preocupa ou os partidos que congregam o centrão estão fazendo o jogo da política?

Elmar Nascimento – Centrão não existe. Na forma que ele é dito, de forma pejorativa, foi simbolizado na figura do ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha, que reuniu no entorno dele uma série de parlamentares e partidos que participavam do governo do PT e depois participaram do governo do presidente Michel. E aí é que começa a mostrar as nossas diferenças. Naquela época, existia centrão, que tinha um chefe – que era Eduardo Cunha. O presidente da Câmara Rodrigo Maia foi convidado pelo presidente Michel Temer para ser líder de governo. E foi vetado por Eduardo Cunha. Seis meses depois, Eduardo Cunha foi cassado e Rodrigo disputou a presidência contra um nome do centrão, que era o deputado Jovair Arantes, que era um nome de Eduardo Cunha. Um ano e três meses depois, Rodrigo disputou novamente contra Rogério Rosso, do PSD, que era um candidato do mesmo grupo de Eduardo Cunha. Quem implodiu o centrão foi Rodrigo. As crises que surgiram foram todas elas ocasionadas por própria iniciativa de setores do governo. Não posso concordar, por exemplo, que o ministério da Educação fale em cortes na UFBA porque existe “balbúrdia” lá. E aí vai penalizar os nossos estudantes? Todas as vezes que tiver que optar entre os interesses do governo e os interesses da Bahia, defenderei os interesses da Bahia. E isso não é fazer política de toma lá dá cá. É defender os interesses dos eleitores do nosso Estado.

Blog do Boka/ Tribuna da Bahia