07
jun
Foto: Cláudia Cardozo/ Bahia Notícias

O caso do suposto estupro envolvendo o jogador Neymar expõe muito sobre a sociedade brasileira atual. O tribunal da internet se dividiu entre os defensores dele e aqueles que aproveitaram para atacar o atacante. Porém, independente de quem seja culpado ou inocente, o episódio trouxe ao debate midiático a violência contra a mulher – mesmo que eventualmente não sejam comprovadas as agressões.

Falar sobre esse tema é extremamente relevante para a construção de uma sociedade melhor. O Atlas da Violência 2019 prova que os números de homicídios de mulheres são alarmantes, mesmo que com dois anos de atraso. Em todo o país, 4.936 mulheres foram mortas em 2017. Em 10 anos, houve um aumento de 30,7% dos casos. O número se assemelha ao total de homicídios, mostrando que há uma escalada de violência nos mais diversos cantos do país. Infelizmente, sobram exemplos de casos de feminicídio noticiados ao longo dos últimos meses.

Os dados chamam tanta atenção que se tornaram alvo de uma campanha publicitária do governo da Bahia sobre a masculinidade tóxica. Vivemos num eterno processo de naturalização da violência, mesmo que nos pequenos gestos, e é preciso chamar à responsabilidade toda a sociedade. Para além de pôr fim ao eterno uso da mulher enquanto objeto, é preciso incrustar a ideia de igualdade de gênero em todos os momentos.

Neste domingo, a Seleção Brasileira de Futebol estreia na Copa do Mundo, por exemplo. Mas ninguém vê toda a mobilização em torno da torcida pela camisa amarela. Por quê? Porque é a seleção feminina que entra em campo. A imprensa, todavia, segue pautando com mais frequência a Copa América masculina do que a preparação de Marta e companhia para a disputa. No comparativo com outras edições, houve melhora. Mas ainda é pouco. E o Brasil não está entre os favoritos, até porque o técnico Vadão não apresenta um bom trabalho e nem assim é tão questionado quanto Tite.

Mulher ter que servir o homem é uma ideia tão antiquada que não sei como ainda insistem nela. Porém não são raras as vezes que vemos, mesmo no seio da família, essa defesa. Situações como “fazer o prato” do almoço até, simplesmente, preparar a comida. Lembro da minha avó paterna reclamando quando dava meio-dia no domingo e ela começava a pressionar para que minha mãe fosse providenciar o prato de meu pai. À época, não tinha noção de quanto isso era nocivo para a manutenção do machismo.

Neymar é culpado? A Justiça vai dizer. A modelo que o acusa de agressão e estupro é culpada? A Justiça também vai dizer. Independentemente do resultado final desse caso, uma coisa é certa. Há muito tempo não se via tão claramente um debate sobre violência contra a mulher. Parte disso é resultado do envolvimento do maior jogador de futebol do Brasil na atualidade. Falar sobre o problema é um dos primeiros passos para solucioná-lo. Mas agora temos que partir para a ação. Afinal, acabar com o machismo é uma obrigação de todos.

Blog do Boka/ Bahia Notícias