27
maio

Jaques Wagner volta a defender reforma política e diz que “militares são lado ponderado e racional dentro do governo Bolsonaro”

O senador Jaques Wagner (PT) evitou falar sobre uma possível candidatura do governador Rui Costa à Presidência da República em 2022, mas ressaltou que, se a discussão aparecer dentro do PT, ele irá apoiar o correligionário. “As pessoas vão se qualificando e há um reconhecimento que a gestão de Rui é austera, como deve ser em crise fiscal. É uma gestão que tem dado um saldo positivo. Óbvio que ele é um cara que está na lista dos competentes. É jovem. E acho que não é hora de pensar nisto, até porque o PT está debruçando em questões mais importantes, como é a questão do Lula. Mas evidentemente que, se o nome dele aparecer dentro do PT, terá o meu total aplauso”, declarou, em entrevista exclusiva à Tribuna. Wagner voltou a criticar o governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL), mas descartou apoiar um eventual impeachment do capitão da reserva. “O atalho que fizeram para tirar o PT do poder foi o impeachment da Dilma, que está cobrando o seu preço caro. É óbvio. Eu não vou propor o que os outros propuseram para me livrar de um presidente inconveniente, que não consegue responder o que o Brasil quer. Não vou usar da mesma arma. Na minha opinião, isso não funciona”, pontuou. Para o senador petista, os militares do governo têm sido o “lado ponderado e racional dentro do governo”. Wagner voltou a defender uma reforma política no país. “As regras brasileiras já foram para o saco. Tudo bem que não vai ter mais coligação, mas tem que mudar muita coisa. Tem que parar com o comércio do tempo de televisão. O tempo de televisão é do partido se apresenta candidato. Eu acho que tem que ter coincidência das eleições. O Brasil não aguenta em dois em dois anos uma eleição. Estou falando de três coisas que pudessem arrumar o quadro político partidário. Com trinta partidos ou mais, eu não vejo nenhum futuro positivo para o país. Se não tiver reforma política, vamos ficar claudicante o tempo todo”, ressaltou.

Tribuna – Como o senhor avalia o início do governo Bolsonaro?

Jaques Wagner – Acho que era o esperado de uma pessoa que não tinha um projeto para o Brasil. Não tinha uma equipe. E que se elegeu em uma onda de negação da política. Era uma revolta da população contra uma política que não resolvia a vida das pessoas. Isso embolou com o combate à corrupção. Então, alguém que se elege sem partido, que o partido (PSL) existe pós-eleição, sem projeto e sem equipe, era de se esperar que tivesse problema. Confesso que surpreende o volume de problemas. Acho que a preocupação dele é manter uma parte do eleitorado que é dele. Então, fica sempre na criação de fatos, de factoide para deixar alimentado. Escolheu o combate contra a classe política, contra o Congresso como forma de dizer que “não estão me deixando governar”. Mas a verdade é que está fechando cinco meses e ninguém conhece nenhum projeto mais objetivo. Estou muito preocupado. Eu conheço empresários que eu diria que não estão arrependidos, mas que já viram que o caminho não era o que eles queriam. O país está em numa rota de não crescimento econômico e desorganização institucional total. Qual é a saída institucional que tem?  Ninguém aqui vai pregar golpe, quando digo golpe é pregar o impeachment.

Tribuna – Já há espaço para discutir impeachment hoje?

Wagner – Repare, eu digo sempre que a democracia não pode ser feita por atalhos. Todo atalho na democracia vai cobrar seu preço adiante. O atalho que fizeram para tirar o PT do poder foi o impeachment da Dilma, que está cobrando o seu preço caro. É óbvio. Eu não vou propor o impeachment que os outros propuseram para me livrar de um presidente inconveniente, que não consegue responder o que o Brasil quer. Não vou usar da mesma arma. Na minha opinião, isso não funciona. Renunciar não sei se é do perfil dele. Ao contrário, ele tem mais o perfil de se encastelar e ficar digladiando, a exemplo do  chamamento que fez para o domingo. Ele vai se apegar em alguma coisa. Alguns pregam o parlamentarismo, mas eu acho que é outro atalho. Pode até ter uma discussão sobre isso. Mas tem que preparar para a próxima (eleição). Não pode mudar no meio do mandato de alguém. Eu pessoalmente não me somo se for formada esse frente.

Tribuna – Qual a avaliação do senhor sobre a reforma da Previdência?

Wagner – Eu acho que eles podem conquistar porque tem, em tese, maioria. Eles, segmentos da imprensa, de empresários estão vendendo uma ilusão de que vai melhorar tudo. É uma mentira isso. O que eles estão prometendo não vão aprovar nunca. Em tese, tem uma imagem de que o governo tem uma maioria e por isso daria credibilidade para os investidores. Mas não acho que vai chover aqui (investimentos), porque todos os países estão disputando investimento estrangeiro. Os Estados Unidos estão com uma política que, do ponto de vista do povo americano, está correta, que é de preservar os seus empregos. Estão com uma taxa de emprego baixíssima. Tem os chineses  que querem investir, mas como o presidente resolve fazer política externa ideológica, espero que ele não atrapalhe. Até o vice-presidente (Hamilton Mourão) foi lá fazer uma visita. O vice-presidente está cumprindo o papel de contraponto. Não sei se combinado. Às vezes, a gente acha que ninguém raciocina lá dentro. Ele deve raciocinar, porque o cara virou presidente da República.  Então, de repente, o jogo é combinado. Estou extremamente preocupado. Tanto que estou relativamente calado porque não quero tocar fogo. Sou de oposição e não concordo com nada do que ele está fazendo. É uma situação muito delicada.

Tribuna – Como o senhor vê a relação entre o Palácio do Planalto e o Congresso Nacional? É uma relação que preocupa pela falta de diálogo?

Wagner – Diálogo até tem. Só que não cumpre. A crise é maior com a Câmara do que com o Senado. Essa crise com a Câmara é oriunda de um acordo que ele fez, de dividir os ministérios. Ele se comprometeu com o presidente da Câmara na presença de outras pessoas. E dois, três dias depois ele disse que não ia mais cumprir. Então, não tem política nem nova nem velha que funcione sem cumprimento de acordo. Faz um compromisso e depois não cumpre. Qual a credibilidade que tem? Nenhuma. Por que eu acho que ele voltou atrás? Porque acho que ele precisa continuar mantendo o eleitorado mais puro sangue dele. Assim como disse que os 47 milhões (de votos) que Haddad teve não são nosso, ele sabe que os 57 milhões não são dele. Tanto que a desaprovação dele já ultrapassou a aprovação. O que ele vai fazer agora? Se apegar ao último reduto dele. É isso. Por isso que aumentou essa crise.

Tribuna – Essas idas e vindas criam uma insegurança jurídica em todo  o país?

Wagner – Total. A insegurança jurídica já havia desde que deram uma rasteira na Dilma. Esse país botou no chão o que há de mais sagrado que é o respeito ao voto popular. Foi ridículo o impeachment da Dilma. Metade dos que votaram já estão arrependidos. Primeiro que metade não está lá mais. Foram varridos do mapa como sempre acontece. A rua é feita de pessoas que observam a cena política. E a rua sabe quem está jogando para a torcida. A instabilidade dele bota o Brasil sendo visto de uma forma muito ruim lá fora. Acho um dos piores momentos que já vivi na política nacional, porque as pessoas estão com a lanterna na mão procurando o caminho. Poucos acreditam que ele tenha alguma coisa para dar ao Brasil. E ai fica se perguntando: vai se suicidar? Não acho que ele tenha essa coragem. Vai renunciar? Não sei. Vai fazer impeachment? Todo mundo está assim: acabamos de sair de um vai entrar em outro?

Tribuna – O que tem que colocar como prioridade além da reforma da Previdência?

Wagner – Acho que a primeira reforma não é nem tributária. A primeira reforma é política. Não tem boa democracia com regras péssimas. As regras brasileiras já foram para o saco. Tudo bem que não vai ter mais coligação, mas tem que mudar muita coisa. Tem que parar com o comércio do tempo de televisão. O tempo de televisão é do partido se apresenta candidato. Eu acho que tem que ter coincidência das eleições. O Brasil não aguenta mais de dois em dois anos uma eleição. Estou falando de três coisas que poderiam arrumar o quadro político partidário. Com trinta partidos ou mais, eu não vejo nenhum futuro positivo para o país. Se não tiver reforma política, vamos ficar claudicantes o tempo todo.

Tribuna – A presença dos militares coloca em risco os avanços democráticos do país?

Wagner – Não acho que os militares estão dispostos a nenhuma aventura autoritária tocada por eles. Não acho que hoje exista unidade nas forças. As forças entraram porque se sentiram prestigiadas, mas os que estão entrando são os mesmos que expulsaram ele das forças da época. Os governos do PT foram os que mais prestigiaram e profissionalizaram as forças armadas. Isso é inquestionável, seja do ponto de vista de salário, de estrutura. Mas, a despeito disto, sinto que criou uma coisa anti-PT. E, portanto, pelo antipetismo abraçaram isso aí. Mas ele não foi lançado pelas forças. Se tiver que escolher um candidato dos militares, não seria ele. Acabaram que embarcaram no governo dele. Provavelmente, podem se identificar com os hábitos, porque na média são mais conservadores. Mas não são pregadores do ódio como ele vive pregando. Muitas vezes, os militares têm sido o lado ponderado e racional dentro do governo. Mas não tem hoje um pensamento único dentro das forças sobre o desenrolar das coisas.

Tribuna – Como vê a situação hoje do ex-presidente Lula?

Wagner – Se não quiserem fazer mais violência contra o estado democrático de direito, ele tem que sair. Teve a pena reduzida, a despeito de que o crime até agora, na minha opinião, não foi comprovado. Hoje está muito claro que a prisão dele foi política. Ele saindo, vai continuar lutando para provar a sua inocência. Essa é a minha previsão, mas como tem a crueldade do grupo de lá, não sei o que pode acontecer.

Tribuna – Como o senhor avalia o ódio ao PT que existiu ao longo da campanha? E o que partido precisa fazer para se reinventar?

Wagner – Eu não concordo com essa afirmação no todo. Eu acho que localizado e pontualmente isso teve. 10% da população ou menos vota ideologicamente. 90% vota em prosperidade. O que é o pensamento normal de uma família? Quero meus filhos na universidade, trabalhando, tendo tranquilidade. As pessoas votam nisto. Rui foi, por exemplo, o governador mais votado na história da Bahia pelos belos olhos, pelo discurso? Não. Foi pelo reconhecimento do trabalho que foi acumulado. Fui o senador mais votado da história por gratidão e reconhecimento. Então, não posso falar de ódio ao PT aqui, no Piauí, no Ceará e não posso falar de ódio ao PT no Rio Grande do Norte, onde a gente acabou de ganhar. Como o Nordeste foi o mais fortemente beneficiado por todos nossos projetos de diminuição da desigualdade, há um reconhecimento. Mesmos nos locais onde era mais agudo o ódio, as informações que me passam é de que isso diminuiu muito. Provavelmente, o desempenho deste governo é muito fraco. Provavelmente, porque viu denúncias de corrupção atravessando diversas siglas partidárias. Mas a gente tem que sempre renovar. Estou fazendo essa pregação. O pessoal continua dizendo que sou um ponto de unidade no grupo para 2022, que acho que está muito longe. Não é o meu planejamento. Poderá ser se for um ponto para manter (o grupo). Não vou deixar esse grupo desfacelar. Mas acho que a gente tem que olhar para moçada de 40 e poucos, de 50 anos. Acho que o PT tem que continuar se oxigenando. Uma cabeça nova pode ter o mesmo ideário, mas vai operar de maneira diferente. O ideário de Rui é o mesmo meu, mas ele opera de um jeito e eu de outro.

Blog do Boka/ Tribuna da Bahia